terça-feira, 12 de maio de 2009

“Abre as asas sobre nós”


Ando liberto dos grilhões acadêmicos da faculdade de Letras, de modo que agora posso interpretar qualquer poema da maneira que eu bem entender e, principalmente, sem citar o Antonio Candido. Direi disparates? Foda-se.

***

Tomemos o seguinte poema de Fernando Pessoa (in O guardador de rebanhos e outros poemas, Cultrix, São Paulo, págs. 84-85):

Liberdade
16-3-1935
(Falta uma citação de Sêneca)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem, ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papeis pintados com tinta.
Estudar e uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por dom Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
***
Primeiro precisamos saber qual é a do Sêneca (século I). E bem grosso modo, podemos dizer que, como bom estóico, Sêneca pensava que um homem tem de fazer aquilo que um homem tem de fazer simplesmente porque sim. O homem não cumpre os seus deveres por eles serem fonte de felicidade: cumpre-os por pura obrigação. São difíceis? Bons? Doídos? Prazenteiros? Não importa: a beatitude seria o estado do homem que atingiu a indiferença com relação às dificuldades ou prazeres suscitados pelo cumprimento das suas obrigações: ele os aceita. E só, o que é bastante lamentável.

A falta da citação de Sêneca parece, portanto, bem adequada. O poema é toda uma louvação do “fazer o que se tem vontade”, em detrimento do “fazer o que se deve”. Mais especificamente, o poema contrapõe as complicações, regras e casuísticas oriundas do pensamento abstrato – o “estudo”, as “danças” e a “literatura”, as “finanças” – com a liberdade fácil proporcionada pela espera ingênua de “dom Sebastião, / Quer venha ou não!”

Assim, ser mesmo livre é ser «natural» e «simples». Seguir os sentimentos, a voz do coração (ou do estômago). Como os rios, as crianças e o canto dos passarinhos. Como o próprio Jesus Cristo, aliás.

***

E o poema seria assim no máximo legalzinho se a gente parasse por aí. Mas a gente continua.

***

Há em “Liberdade” uma ironia fundamental que contamina todas as camadas de compreensão do poema. Uma contradição óbvia, que passa despercebida e que evoca um título clássico da Sessão da Tarde: “Olha quem está falando”.

Então quer dizer que neguinho quer falar mal da abstração, da casuística, da regra e da literatura por meio de – pasmem – um poema! Sim, aquela forma sofisticada da expressão verbal, posta acima da prosa vulgar cotidiana. E o pior é que é um poema todo rimado: “prazer” / “dever ” / “ler” / “fazer”; “maçada” / “nada”; “mal” / “original” / “matinal”; e por aí vai. Mais: se “livros são papeis pintados com tinta”, por que diabos escrever um poema que vai publicado nesse tão maligno meio de comunicação? Ora, seria menos incoerente tornar-se um aedo e sair pelas ruas a recitar versos.

Ligada a chave da ironia, é possível aproximar-se das imagens do poema com outra disposição, com mais espírito de porco, digamos. Por exemplo: quer dizer que a melhor coisa do mundo é ser um ignorante e ficar feito um bobo alegre esperando dom Sebastião na bruma? Ou ainda: Jesus Cristo não sabia nada de finanças? Ok. E quem disse, caro leitor, que você é Jesus Cristo?

Mesmo a epígrafe – a falta dela – pode ser entendida de outra forma. Raciocinemos: para citar Sêneca, é preciso ter antes lido Sêneca. Mas, segundo o texto, “ler é maçada”. De modo que seria bem plausível supor que o eu-lírico nunca leu nada do egrégio pensador romano, tendo deixado de citá-lo meramente por ignorância. Quiçá, ouvira algo a respeito dele nas aulas da escola, uma pegada sobre o dever e tals. Só que, sei lá, não pôde reter nenhuma citação na cabeça. Preferiu «ser livre» e fazer só o que lhe desse na telha; ficou vendo o rio correr em vez de pegar no livro. E eis outra contradição do texto: Por que o tão livre eu-lírico foi incapaz de citar Sêneca? Afinal, ele quis fazê-lo. Sempre julgou-se livre por se ter afastado do dever, mas devido a esse afastamento não pôde dizer o que queria. A sua liberdade diminuiu com o uso? Limitou-se a si própria? Um impasse.

***

Duas visões da liberdade. E não se sabe qual a mais deplorável. A liberdade estóica, espezinhada pelo texto, é pernóstica e insustentável. Porque cedo ou tarde o saco estoura ou murcha: os atos carecem de qualquer significação e logo deixam de ser praticados.

Já a liberdade que o poema propõe como resposta tampouco é grande coisa. É contraditória em si: o sujeito quer falar mal de literatura e fatalmente produz um poema. O homem não vive sem regras; quando opta por livrar-se dos deveres e obrigações, opta por seguir regras que não conhece muito bem ou que cria ad hoc.

***

E qual seria a liberdade possível? Ora, isso o poema não diz. Faz pensar. Eu chutaria que a coerência é sempre um começo libertador. O coerente sempre acaba, por bem ou por mal, tornando-se um realista.

***

Achei legal ouvir Fernando Pessoa na voz de um ator português chamado João Villaret:

5 repetindo:

Rayran disse...

Esperar Dom Sebastião ... É bom pelo menos achar que ele venha, é esperança ... "mentiras sinceras me interessam" kkk. Também é bom livrar-se de Candido, ele não sabe o que o poema significa pra mim, eu sou a melhor pessoa que o interpreto ... E isto basta. Vlw. Muito bom post.

Cristina Casagrande disse...

Várias coisas.

Primeiro, gostei mais desse fundo do blog. O outro me doía as vistas.

Segundo, aaahhh, você e a liberdade! Vou pôr uma frasezinha de uma amiga (aliás, ela é genial, entra no flickr dela): "Se nascer de novo, nasço passarinho"
Eis o flickr: http://www.flickr.com/photos/marinafaria/
Tem um blog que ela participa mto bom tb (não,eu não recebo comissão para divulgar o trabalho dela,rs): http://www.fragmentos.bz/

Terceiro, Pessoinha, meu poeta favorito que me perdoe, mas a melhor parte do post é: "Direi disparates? Foda-se."

Axé.

Moniquilda disse...

Genial, como sempre.
Ps: gostei do fundo novo, mas ainda tenho restrições (rs).
Beijinhos

sabrina duran disse...

meu querido,
seus posts tem cada vez mais folego!!! estou mto bem impressionada com sua pessoa..:-)
beijo!

Cristian disse...

- Ray: Dada um tem de se bater com os poemas pra extrair deles um sentido pra si. Ou pra notar q eles não significam droga nenhuma! Valeu e um abraço!

- Cris: 1) pois é, tb gostei mais desse ;)

2) talentosa a sua amiga! gostei do flicker e do blog! vou acessá-los mais e diga q eu tiro o meu chapéu interior pra ela.

3)liberdade é um tema q me fascina desde sempre.

4) poxa, ganhar do Pessoa com essa frase, hehehehe Q beleeeeeza!

- Moni: menos menos :) bjos!

- Sá: que honra a sua visita! então impressionamo-nos mutuamente :) bjões!