
Ando liberto dos grilhões acadêmicos da faculdade de Letras, de modo que agora posso interpretar qualquer poema da maneira que eu bem entender e, principalmente, sem citar o Antonio Candido. Direi disparates? Foda-se.
Tomemos o seguinte poema de Fernando Pessoa (in O guardador de rebanhos e outros poemas, Cultrix, São Paulo, págs. 84-85):
Liberdade
16-3-1935
(Falta uma citação de Sêneca)
(Falta uma citação de Sêneca)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem, ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papeis pintados com tinta.
Estudar e uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
A falta da citação de Sêneca parece, portanto, bem adequada. O poema é toda uma louvação do “fazer o que se tem vontade”, em detrimento do “fazer o que se deve”. Mais especificamente, o poema contrapõe as complicações, regras e casuísticas oriundas do pensamento abstrato – o “estudo”, as “danças” e a “literatura”, as “finanças” – com a liberdade fácil proporcionada pela espera ingênua de “dom Sebastião, / Quer venha ou não!”
Assim, ser mesmo livre é ser «natural» e «simples». Seguir os sentimentos, a voz do coração (ou do estômago). Como os rios, as crianças e o canto dos passarinhos. Como o próprio Jesus Cristo, aliás.
E o poema seria assim no máximo legalzinho se a gente parasse por aí. Mas a gente continua.
Há em “Liberdade” uma ironia fundamental que contamina todas as camadas de compreensão do poema. Uma contradição óbvia, que passa despercebida e que evoca um título clássico da Sessão da Tarde: “Olha quem está falando”.
Então quer dizer que neguinho quer falar mal da abstração, da casuística, da regra e da literatura por meio de – pasmem – um poema! Sim, aquela forma sofisticada da expressão verbal, posta acima da prosa vulgar cotidiana. E o pior é que é um poema todo rimado: “prazer” / “dever ” / “ler” / “fazer”; “maçada” / “nada”; “mal” / “original” / “matinal”; e por aí vai. Mais: se “livros são papeis pintados com tinta”, por que diabos escrever um poema que vai publicado nesse tão maligno meio de comunicação? Ora, seria menos incoerente tornar-se um aedo e sair pelas ruas a recitar versos.
Ligada a chave da ironia, é possível aproximar-se das imagens do poema com outra disposição, com mais espírito de porco, digamos. Por exemplo: quer dizer que a melhor coisa do mundo é ser um ignorante e ficar feito um bobo alegre esperando dom Sebastião na bruma? Ou ainda: Jesus Cristo não sabia nada de finanças? Ok. E quem disse, caro leitor, que você é Jesus Cristo?
Mesmo a epígrafe – a falta dela – pode ser entendida de outra forma. Raciocinemos: para citar Sêneca, é preciso ter antes lido Sêneca. Mas, segundo o texto, “ler é maçada”. De modo que seria bem plausível supor que o eu-lírico nunca leu nada do egrégio pensador romano, tendo deixado de citá-lo meramente por ignorância. Quiçá, ouvira algo a respeito dele nas aulas da escola, uma pegada sobre o dever e tals. Só que, sei lá, não pôde reter nenhuma citação na cabeça. Preferiu «ser livre» e fazer só o que lhe desse na telha; ficou vendo o rio correr em vez de pegar no livro. E eis outra contradição do texto: Por que o tão livre eu-lírico foi incapaz de citar Sêneca? Afinal, ele quis fazê-lo. Sempre julgou-se livre por se ter afastado do dever, mas devido a esse afastamento não pôde dizer o que queria. A sua liberdade diminuiu com o uso? Limitou-se a si própria? Um impasse.
Duas visões da liberdade. E não se sabe qual a mais deplorável. A liberdade estóica, espezinhada pelo texto, é pernóstica e insustentável. Porque cedo ou tarde o saco estoura ou murcha: os atos carecem de qualquer significação e logo deixam de ser praticados.
Já a liberdade que o poema propõe como resposta tampouco é grande coisa. É contraditória em si: o sujeito quer falar mal de literatura e fatalmente produz um poema. O homem não vive sem regras; quando opta por livrar-se dos deveres e obrigações, opta por seguir regras que não conhece muito bem ou que cria ad hoc.
E qual seria a liberdade possível? Ora, isso o poema não diz. Faz pensar. Eu chutaria que a coerência é sempre um começo libertador. O coerente sempre acaba, por bem ou por mal, tornando-se um realista.
Achei legal ouvir Fernando Pessoa na voz de um ator português chamado João Villaret:

5 repetindo:
Esperar Dom Sebastião ... É bom pelo menos achar que ele venha, é esperança ... "mentiras sinceras me interessam" kkk. Também é bom livrar-se de Candido, ele não sabe o que o poema significa pra mim, eu sou a melhor pessoa que o interpreto ... E isto basta. Vlw. Muito bom post.
Várias coisas.
Primeiro, gostei mais desse fundo do blog. O outro me doía as vistas.
Segundo, aaahhh, você e a liberdade! Vou pôr uma frasezinha de uma amiga (aliás, ela é genial, entra no flickr dela): "Se nascer de novo, nasço passarinho"
Eis o flickr: http://www.flickr.com/photos/marinafaria/
Tem um blog que ela participa mto bom tb (não,eu não recebo comissão para divulgar o trabalho dela,rs): http://www.fragmentos.bz/
Terceiro, Pessoinha, meu poeta favorito que me perdoe, mas a melhor parte do post é: "Direi disparates? Foda-se."
Axé.
Genial, como sempre.
Ps: gostei do fundo novo, mas ainda tenho restrições (rs).
Beijinhos
meu querido,
seus posts tem cada vez mais folego!!! estou mto bem impressionada com sua pessoa..:-)
beijo!
- Ray: Dada um tem de se bater com os poemas pra extrair deles um sentido pra si. Ou pra notar q eles não significam droga nenhuma! Valeu e um abraço!
- Cris: 1) pois é, tb gostei mais desse ;)
2) talentosa a sua amiga! gostei do flicker e do blog! vou acessá-los mais e diga q eu tiro o meu chapéu interior pra ela.
3)liberdade é um tema q me fascina desde sempre.
4) poxa, ganhar do Pessoa com essa frase, hehehehe Q beleeeeeza!
- Moni: menos menos :) bjos!
- Sá: que honra a sua visita! então impressionamo-nos mutuamente :) bjões!
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