quinta-feira, 23 de abril de 2009

Superafim

“Ruindade é pressa, meu Mocinho.
Pressa de qualquer coisa”

(João Guimarães Rosa)

É normal e saudável apostar. Aliás, é mesmo uma necessidade fundamental. Porque toda a aposta envolve risco e todo o risco envolve compromisso. E os compromissos deixam a vida mais intensa, lançam-nos todos inteiros no próprio cerne da experiência. Maximizam a dor, lógico, mas também o gozo. E é precisamente daí que vem boa parte do fascínio da aposta. Quem não se arrisca é terminantemente medíocre.

Não quero dizer que exista “a inevitável necessidade” de apostar, por exemplo, o toba numa partida de truco. Falo de apostas vitais, como aquela que um bando de marmanjos fez ao se meter numa caravela e atravessar o oceano; ou ainda a que faz um casal quando tem a disparatada idéia de contrair matrimônio. Por mais que se pense antes de assumir tais riscos – e é preciso pensar –, há sempre uma parcela de imponderável que torna tudo, digamos, mais dramático.

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O jogador maduro é prudente, corajoso e paciente. Às vezes, acho que a crise financeira talvez fosse menos atroz se antes tivesse havido mais paciência.

Os investidores assumiram um risco alto quando injetaram dinheiro no nebuloso mercado imobiliário. Ganharam muito até que veio um calote em massa e mandou a vaca para o brejo. Descobriram que todo o dinheiro que possuíam era um monte de títulos de dívidas que não foram nem serão pagas. Comprometeram-se e perderam parte das suas fortunas. E foi isso. Não há o que fazer senão trabalhar para ganhar dinheiro real.

Apostar e perder não foi um erro. Acontece. Talvez um erro deles tenha sido querer fruir demasiadamente cedo de um dinheiro de que ainda não dispunham de fato. E é aí que entra a paciência. Tivessem sido menos afoitos, não teriam dado como certo o retorno dos seus investimentos e não teriam assumido risco sobre risco. Quiseram adiantar o futuro. É como se um cidadão contraísse dívidas dando como certo que as suas dezenas da loteria serão as sorteadas. Aquele que assume risco sobre risco constrói um castelo imaginário, é o jogador viciado, o pior dos jogadores, um Alexei Ivanovich, que se perde no frisson da roleta e põe os dois pés fora da realidade.

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Mas acaba por ser compreensível que os investidores tenham sido afoitos. É mais fácil. Todo mundo quer satisfazer o desejo o mais rápido possível. E todo o mundo que nos circunda conspira em favor disso: “Ligue já”, “Viva o agora”, “Para que esperar?”, “Serviço express”, “Compre agora e pague depois” et cetera.

A «muderrrnidade» facilitou muito essa antecipação. Não é preciso esperar pela salvação, pois as utopias de direita ou esquerda trarão à terra o céu; não é preciso esperar pelo amanhã, pelo casamento, pela temporada de morangos, pelo dia em que as lojas abrirão, pelo momento em que a pessoa esteja em casa..., cada vez mais coisas estão aqui, ao alcance da minha mão. Só que sem espera não se nota o risco, que ocupa o vão entre o desejo e a posse: parece ser possível viver o futuro agora sem pagar nada...

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Todo o amadurecimento supõe paciência. Às crianças, por exemplo, são negadas as “coisas de adulto”, de modo que têm de refrear os seus impulsos e aprender a dirigi-los para outras coisas. E a pessoa madura é precisamente aquela que sabe refrear e dirigir os seus impulsos.

A pessoa que sempre teve ou fez o que quis gira em falso, é emocionalmente instável, incapaz de compromissos constantes e séria candidata à depressão. Boa parte dos casos de depressão é ansiedade frustrada: porque inevitavelmente chega o momento em que se descobre que, como os investidores de Wall Street, nunca se possuiu de fato nada daquilo que foi roubado ao futuro. O futuro não existe senão como um norte mental. Querer fruir o futuro antes de construi-lo é uma desordem e uma forma de fugir do inflexível presente.

7 repetindo:

André Henriques disse...

Aê! O prometido texto! E nem preciso falar que ficou muito bom. Parabéns!

É tudo para agora ontem se possível ou se impossível também. As conquistas são rápidas e a maior conquista é a quantidade de informação. Informação não disciplina faz te achar poderoso para poder quebrar todos os paradigmas que antes regiam a sociedade. Tudo vira questões de tabu e não sei quem inventou que tabus são ruins e necessariamente devem ser quebrados (confesso, contudo, que apoiei intensamente a quebra de tabu de títulos do Peixe em 2002, mas esse é de outra ordem).

A ordem social é caotiquizada (inventei, hein?!) e cada um vive a sua vontade, assim, tudo acaba relativizado. Escrúpulo e caráter perdem parâmetros, o bem e o mal já não se sabe o que é o que, o certo e o errado também. Até a verdade, que é o ato sincero, aquele que não visa tirar vantagem ou se esquivar das responsabilidade, fica relativizada. A verdade não deve ser confundida com a narração de um fato imparcial, ou seja, aquilo que a ciência acredita buscar, e se sabe que essa verdade não existirá. A sinceridade é o sentido da verdade quando se pede a explicação ou ação em alguns casos.

Mas como se vê tudo de forma tão passageira se a necessidade de se apegar, é melhor correr daquilo que parece que vai satisfazer em parte o que queremos, mas ainda não vai satisfazer desejos que ainda nem sabemos se iremos desejar.

Marina Sathler disse...

poxa eu queria só comentar mas o André fez um post sobre o post, aí fica difícil.
Vou só dizer então que concordo com o que vc diz, e que devemos sim apostar, sempre... às vezes fica difícil manter aquilo que apostamos, mas sabemos que sempre tem um jeito de levar adiante aquilo que estamos designados para fazer, seja lá o que for !! Desistir jamais... é uma maturidade sem igual, e vc, caro, Cris, carrega em si esse conhecimento q é muito raro. :)
Beijos

André Henriques disse...

desculpa aê....

Moniquilda disse...

Difícil é achar o momento da aposta e o momento de se ter paciência e esperar. Aí, muitas vezes não se aposta, ou ainda (e o que é pior) se aposta sério demais sem que sejam medidas as consequências.
Resumindo: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come!

Mas como bem disse a Marina: vc é maduro o suficiente para saber o exato momento. E por isso (e por tantas outras coisas) te admiro.

Beijos

Cristian disse...

André: nem preciso dizer q o seu comentário está muito bom. Parabéns!

Como vc bem disse, esse excesso de informação acaba levando a relativização de tudo, pois as pessoas não conseguem integrá-lo ordenadamente nas suas vidas: tudo vem achatado, como se tudo tivesse igual valor. O problema é q não tem e logo a realidade ignorada surge caoticamente sob o nosso olhar.

Abração, meu caro!

: sempre tem um jeito, sempre tem um jeito! e que é rara aqui é vc, cara sagaz =) bjo!

Moniquinha: difícil é. é necessária determinação pra gente aprender a ponderar as coisas e dar-lhes o seu devido valor. a gente vai quebrar muita vez a cara. Mas o q tem de ficar sempre, é a vontade de acertar, é o esforço valer-se de todos os meios possíveis para acertar e a humildade para curvar a cabeça ante a realidade.

e eu admiro os confetes e quem os jogou. bjo!

Lia Lee disse...

É, demorou mas saiu... e muito a contento, diga-se de passagem.

Bem, adoro o Dosto e o Jogador é um livro arrepiante!

Sobre a pressa moderna, disse o louco do Pessoa que somos viciados em velocidade como se fôssemos cocainômanos.

Quanto a riscos, eu sou umas das pessoas que mais se arrisca que já conheci. Não sei pra onde isso leva, mas sempre me arrisco.

Cristian disse...

Lia, my queen: vc é q está montada na razão! ;)